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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 117 :: Março/2008 :: -

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CULTURA E ASTROLOGIA

Sobre a "Ars" e seu estudo

Thiago do Amaral

Ninguém nasce com aptidão para a astrologia: seu conhecimento se dá pelo esforço consciente e racional de compreensão de uma "gramática" com regras bem definidas. Por outro lado, o discurso astrológico ocupa em nossa sociedade um lugar único, onde a intuição e os "insights" podem se desenvolver de modo privilegiado.

Não pretendo aqui explicitar de quais elementos a astrologia é composta, nem tampouco tentar defini-la ou dizer quais seus fins. Pretendo sim evidenciar o ganho qualitativo do estudo deste saber e mostrar sua amplitude e fecundidade.

Este artigo surgiu com a necessidade de dar aos leigos a oportunidade de entender um pouco mais os meandros pelos quais se desenvolve este ramo do saber, ao mesmo tempo em que, para os que já o conhecem, abre um espaço para reflexão. Parte do que pretendo mostrar aqui é o quanto o estudo da astrologia pode ser prazeroso (sem no entanto entrar no terreno das múltiplas finalidades as quais ele se presta).

Apesar da simplicidade da definição da astrologia, sua prática e seu estudo tem algo de muito misterioso e que de certa forma nos seduz e nos escapa, sendo difícil discorrer sobre eles. Explico o porquê. Trata-se de um saber muito sutil e extremamente rico no leque de possibilidades e aprofundamento, como se verá adiante.

ASTROLOGIA E CIÊNCIAS
DA LINGUAGEM

(Nota do Editor)

Com a obra de Ferdinand de Saussure (1857-1913) a Lingüística atinge o status de ciência e passa a ser vista como parte de um campo de estudos mais amplo - a Semiologia, ou ciência geral dos signos. A partir de Saussure constitui-se um corpus teórico capaz de compreender e descrever todas as manifestações de linguagem, das quais a Astrologia é um bom exemplo.

Mais recentemente, a partir do final dos anos 50, a teoria da Gramática Generativa Transforma- cional do lingüista americano Noam Chomsky vem ajudando a compreender o processo de aquisição da linguagem como uma capacidade inata do ser humano. As "estruturas profundas" da língua seriam comuns a toda a humanidade, permitindo que, a partir do domínio de um limitado conjunto de regras gramaticais e de um vocabulário básico, seja possível a constituição de uma infinita variedade de enunciados. Esta mesma percepção já permeia explicitamente a teoria astrológica desde, pelo menos, a obra de Morin de Villefranche, no século XVII.

Contudo, é na obra do filósofo francês Blaise Pascal que encontramos uma distinção entre dois tipos peculiares de inteligência, freqüentemente retomada por teóricos que tentam explicar a natureza diferenciada do conhecimento da Astrologia: o pensamento lógico-formal (esprit de géometrie) e a inteligência afetiva (esprit de finesse). O primeiro método é racional, abstrato e preciso, sendo típico do pensamento científico, em geral; o segundo baseia-se na percepção refinada do senso comum, na avaliação emocional e na analogia, sendo mais comum no universo da arte, por exemplo. A Astrologia é um dos poucos campos de conhecimento que exige a utilização intensiva e simultânea dos dois tipos de inteligência, já que é ao mesmo tempo baseada na aplicação de regras abstratas e na interpretação aberta de símbolos.

Em nível bem elementar, a astrologia é composta de componentes muito básicos (os signos, as casas, os planetas e os aspectos) [1]. Acontece que, combinados entre si, estes componentes, que são poucos, produzem uma quantidade incrível de interpretações. Portanto, o conceitual deste saber é de fácil assimilação e aprendizado, mas as múltiplas combinações e a síntese de tais elementos fazem desta arte um campo de complexidade notável. Somente à maneira elucidativa, imagine a interpretação de um Sol em Capricórnio, situado na casa [2] cinco e em conjunção [3] com o planeta Vênus, sendo que ambos planetas ainda fazendo um trígono [4] com a Lua na casa nove. É necessário, portanto, uma grande capacidade sintética para unir todos os elementos em um conteúdo único, isso sem contar o sem-número de possibilidades de leitura que cada um destes componentes isoladamente já traz e que, ao se mesclarem, aumentam exponencialmente.

Antes de prosseguir com a reflexão, vale a pena ressaltar e fazer um esclarecimento aqui, que é engano comum de quem não conhece a astrologia. A interpretação de um mapa astrológico qualquer não se dá espontaneamente, como que por um dom nato ou espécie de "mediunidade". Ninguém nasce com aptidão para a astrologia. Muito diferente disto, seu conhecimento se dá por um esforço necessário. E tal esforço aumenta à medida em que vai-se aprofundando o estudo.

Depois de se conhecer todo o instrumental elementar necessário, começam então a surgir as sutilezas, necessárias para um progressivo refinamento das análises. Portanto, neste sentido a astrologia pode ser comparada a um imenso diamante a ser lapidado ao longo do tempo, um verdadeiro terreno de fertilidade prodigiosa a ser explorado, com muito potencial para novas descobertas.

Uma comparação que costuma-se fazer da astrologia é com a do aprendizado de uma língua qualquer. Eu poderia ir além e dizer que ela se parece muito com o estudo de uma língua bem conhecida: o inglês, em que o essencial a se aprender e a gramática são bem enxutos, no entanto para se atingir um nível de refinamento, o esforço vai aumentando e as sutilezas vão exigindo um esforço cada vez maior. Falar o básico nesta língua é relativamente fácil, mas ampliar e refinar o vocabulário, que é muito extenso, é coisa difícil. Assim é também com a astrologia: seu vocabulário literalmente não tem fim.

Um outro ponto importante é que o esforço se dá através do uso da razão, uma vez que o universo semântico (de significados) da astrologia se encadeia de forma absolutamente lógica e coerente. No entanto, apesar de se usar a razão nesta arte, nela existe todo um universo do não-verbal. Tal universo se refere ao fato de que a astrologia é uma linguagem simbólica, e todo símbolo é simplesmente impossível de se traduzir verbalmente. Muitas vezes os símbolos apenas nos sugerem algo, fugindo-nos a maneira de conseguir transmitir este conteúdo de forma clara e objetiva. Obviamente que existe a possibilidade de com o símbolo formar analogias, traçar paralelos, tentar explica-lo através de palavras, porém, a tradução mais plena possível só acontece apenas através de outro símbolo.

Por este motivo não se pode dizer que alguém "domine" o saber astrológico. Pode-se com certeza conhecer amplamente uma ou algumas das inúmeras técnicas astrológicas existentes (e olha que existem inúmeras, para fins diversos), no entanto a astrologia em si é absolutamente vasta, multifacetada e incapaz de ser englobada totalmente. Mesmo o melhor astrólogo será capaz de apenas dar uma boa interpretação de um mapa e mostrar alguns determinados aspectos dele, sem no entanto conseguir abarcá-lo completamente.

Em poucas palavras, ler uma mapa é como traduzir um poema. Tantas sutilezas necessárias, tanto esforço no sentido de recuperação do significado essencial, e no final por melhor que seja a "tradução", sabe-se que houve algumas perdas, ou, para colocar de outro modo, não se esgotou o significado total.

Por falar em poesia, quem já estudou ou estuda a astrologia sabe que se trata de um instrumento de prazer cultural de riqueza inesgotável. Poucos exercícios são tão fecundos quanto descrever e interpretar um mapa. Há tantos vieses pelos quais podemos enveredar, que é simplesmente impossível enumerá-los aqui. E para quem já teve a oportunidade de fazer uma interpretação em conjunto com outras pessoas, sabe o quanto novos olhares trazem novos vieses, enriquecendo e ampliando a análise.

A astrologia faz parte de um jogo complexo e polissêmico, que "casa" muito bem com vários outros ramos do saber, isto sem mencionar que ela mesma é composta essencialmente de símbolos, mitos e filosofia (e porque também não a História, já que se trata de um conhecimento milenar?). Para exemplificar isto, imagine o Sol no signo de Aquário. Existe um significado profundo que podemos ampliar através de comparações e do uso da mitologia para melhor compreendermos o que esta configuração tem a nos dizer. O Sol, astro que emana luz e calor para todo o sistema solar, o princípio mantenedor da vida por excelência, é símbolo da vitalidade do indivíduo. Aquário, que tem na sua base interpretativa associação com o mito de Prometeu, representa o impulso benéfico em favor da humanidade. E isto se dá porque Prometeu no mito foi o mortal que roubou o fogo dos deuses e o entregou aos homens, marcando portanto uma transgressão em disponibilizar algo essencialmente divino em favor do coletivo. De certa forma existe um movimento antagônico entre os dois símbolos, pois o Sol é a expressão máxima da individualidade enquanto Aquário é a ação em favor do coletivo. Este exemplo foi apenas para dar uma pequena idéia da polissemia existente dentro do corpus astrológico, usando-se da mitologia.

Se por um lado podemos fazer uma mistura incrível de diversas áreas do saber como forma de explorar o conteúdo astrológico, por outro a astrologia está longe de ser uma "terra de ninguém" onde vale tudo. Na verdade existem regras absolutamente precisas que regulam este conhecimento. Muitos tratados foram escritos ao longo da história, em latim, grego, árabe e também recentemente em línguas modernas, tratando destas regras, que são uma espécie de gramática que regula e mantém coerência no corpus constitutivo da astrologia. E dentro deste esquema de coerência interna, a análise de um mapa só pode ser verossímil se mantemo-nos fiéis às regras existentes. Note que quando se fala em regras, estamos em um registro totalmente oposto à astrologia vulgarizada, muito comum e praticada vastamente hoje em dia. O que exploro aqui é uma astrologia compromissada e séria.

Outro curioso fato existente neste campo é a capacidade de um mapa astrológico se desdobrar no tempo. Olhar para um mapa ao longo de anos é como ver ele se transformar. Emergem inúmeras facetas antes não vistas ou pensadas, e que de certa forma talvez não fizessem sentido anteriormente. E isto não porque não se tenha feito uma análise completa, mas simplesmente porque não existe uma análise completa. A cada novo olhar, o mapa parece se modificar e se "re-significar". Por esta razão acredito que o mapa seja não um objeto, mas sim um sujeito, capaz de dialogar e manter o nível (cultural e interpretativo) de quem o indaga. Quero dizer com isto que tanto mais há a se explorar na astrologia quanto mais profundidade se pretende buscar.

Finalizo com a esperança de ter podido evidenciar e explicitar um pouco deste "oceano" aberto em possibilidades. O discurso astrológico de fato é um lugar praticamente único em nossa sociedade, onde as intuições e os "insights" podem se desenvolver de modo privilegiado. E a capacidade criadora aí existente é digna de pessoas interessadas em algo muito além daquele tipo de conhecimento comum (técnico e estéril) em nossa sociedade, que visa apenas à produção material ou intelectual quantitativa.

Fica aqui portanto um estímulo e apoio para os que se encorajarem a explorar este rico universo prodigioso em prazer e cultura, que é a astrologia. [5]

NOTAS:

[1] Ao todo 12 signos, 12 casas, 10 planetas (pois considera-se uma perspectiva geocêntrica, onde o Sol e a Lua teriam valores similar aos planetas conhecidos) e 5 aspectos maiores. Poderíamos eventualmente adicionar o Ascendente e o Meio-Céu, que são abstrações matemáticas, o que nos daria um total de 41 elementos constitutivos.

[2] As casas, em um total de 12, guardam analogia com os signos. A diferença básica é que elas mostram áreas ou setores específicos da vida. Exemplos: finanças, trabalho, lazer, etc.

[3] A conjunção é um dos aspectos maiores, que se dá quando dois planetas estão próximos, no mesmo signo e preferencialmente no mesmo grau dentro deste signo, de modo que os significado de ambos se associa.

[4] O trígono, também outro dos aspectos maiores, se dá quando dois planetas estão a uma distância de 120 graus um do outro.

[5] A palavra "Ars", no título do artigo, vem do Latim e significa: arte, técnica, saber.

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