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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 110 :: Agosto/2007 :: -

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ASTROLOGIA E MOVIMENTO ESTUDANTIL

O horóscopo da ocupação da USP

Um astrólogo do movimento estudantil

De 3 de maio a 22 de junho de 2007 o prédio da reitoria da Universidade de São Paulo esteve sob ocupação de estudantes que protestavam contra o risco de redução da autonomia universitária. Foram 51 dias de impasse, que incluíram ameaças de invasão pela tropa de choque da PM. Um astrólogo universitário que viveu de perto os acontecimentos analisa a ocupação e lança mão de configurações celestes para explicar o velho debate entre direita e esquerda.

"Hoje, dia 22/06/07, no início da noite, as dependências do prédio da Administração Central foram desocupadas e, em decorrência, entregues os termos de compromisso firmados com os funcionários e estudantes."

(Comunicado da reitoria da USP na noite de 22.06.2007)

Introdução

No dia 3 de maio de 2007, por volta das 17h30min, um grupo de cerca de 300 estudantes ocupou a Reitoria da USP, na Cidade Universitária, em São Paulo. A decisão dos estudantes por manter a Ocupação foi tirada em Assembléia e pode ser vista no YouTube. A pauta de reivindicações dos estudantes contempla 18 itens cujo teor abarca a melhoria da assistência estudantil, muito importante, por exemplo, para os estudantes de baixa renda e, o que tem impacto político no governo do Estado, itens que contestam os decretos do governador de São Paulo, José Serra. Uma análise dos decretos levanta questões que poderiam afetar a autonomia universitária, que tem sido uma luta histórica constante do meio universitário: avançar no sentido da conquista de tal autonomia, que seria, grosso modo, a liberdade que uma universidade possuiria para a pesquisa, ensino e extensão. O debate atual, no entanto, tem se concentrado especialmente na dimensão financeira dessa autonomia, a chamada "autonomia financeira" e na autonomia de pesquisa, sobre as quais o texto dos decretos de Serra entra em contradição, o que gerou revolta no meio universitário.

NOTA DE CONSTELAR

Se bem que não faça parte da política editorial de Constelar publicar textos anônimos ou sob pseudônimo, eventualmente podemos abrir uma exceção, desde que haja uma justificativa real. É o caso do autor do presente artigo, que lança mão do anonimato por ser estudante de um dos cursos da área tecnológica da USP e estar envolvido no movimento estudantil. O artigo chegou ao editor de Constelar através do astrólogo Alexey Dodsworth, único a conhecer a identidade do autor incógnito.

As universidades, nos idos medievais e renascentistas, não eram autônomas porque o pensamento estava condicionado ao poder teológico. A revolução científica iniciada por Galileu e Copérnico é emblemática nesse sentido. Nos séculos seguintes, na luta pela imposição da racionalidade científica, a própria astrologia, no século XVII, terminou expulsa das universidades. E, ainda em nossos dias, o poder teológico já não consiste mais num obstáculo para o pensamento. No entanto, a autonomia universitária presencia hoje um outro tipo de força que domina nossa sociedade e tende a estender sua influência cada vez mais no meio acadêmico: o poder do mercado. Os comerciais das universidades privadas, por exemplo, sempre associam seu ensino a essa bandeira, no interesse de atrair os jovens, que por sua vez buscam perspectivas de vida perante a nova organização da sociedade contemporânea.

Nesse momento, pode-se ter a impressão de que a adequação da universidade a essa lógica seria, portanto, a forma natural de se reafirmar seu sentido perante a sociedade. E por que não? Não, porque tal processo banalizaria o papel da universidade, reduzindo-a a mera produtora de riquezas e idéias limitadas e comprometidas com uma lógica demasiado particular: a lógica da mercadoria, em dentrimento de um projeto muito mais profundo e de todo um restante espectro de possibilidades: humanistas, políticas, sociais, filosóficas, científicas, etc. O mercado seria uma delas, mas não a única e nem demasiado preponderante. Temos de um lado um projeto de universidade acrítica, unilateralmente direcionada: com interesses privados. Temos de outro lado um projeto de universidade crítica, com liberdade de pesquisa, ensino e extensão e voltada para os interesses públicos. Nenhum dos dois projetos está ainda plenamente materializado. "O mundo não é, o mundo está sendo", já dizia Paulo Freire. Pode-se entender a USP, enquanto universidade e instituição social, como o resultado do encontro dessas tendências, na forma concreta de conflitos desses interesses. De um lado, a bandeira utópica da "autonomia universitária" e de outro os interesses pragmáticos e imediatos de uma sociedade pressionada pela lógica da produção e, por vezes, interesses privados de segmentos poderosos. Assim, a USP é uma universidade mantida pelo imposto público, mas tem tido dificuldades de se democratizar. Seus cursos de graduação são gratuitos, mas seu relacionamento com fundações privadas, que oferecem cursos e serviços pagos, é obscuro e objeto constante do debate e das lutas políticas no seio da comunidade acadêmica.

Esta introdução não contempla ainda todas as dimensões do conflito, mas permite vislumbrar por que o debate em torno dos decretos de José Serra trouxe tanto alvoroço: os decretos visam a manipular o orçamento das universidades. Num movimento recente, nesse tabuleiro de xadrez, no dia 30 de maio, através de um inédito "decreto declaratório", Serra recuou bastante, cedendo às pressões dos movimentos estudantis, embora oficialmente estivesse apenas "prestando esclarecimentos". Mas vamos voltar ao foco de nosso artigo e iniciar a análise astrológica do momento da ocupação, por parte dos estudantes, da Reitoria da USP, centro do poder dirigente da universidade.

Figura 1: Horóscopo da Ocupação da Reitoria da USP:
03 de maio de 2007, São Paulo, 17h30min

Um ato súbito

É fato notável que não era, no dia 3 de maio, intenção dos estudantes ocupar a reitoria da USP quando para lá se dirigiram. Os estudantes haviam marcado uma audiência aberta com um representante da Reitoria, que não compareceu. Eles queriam, nessa reunião, exigir um posicionamento da reitora com relação aos decretos de Serra. Depois do "bolo", decidiram ir, já indignados, para a Reitoria. Assim, eles queriam apenas entregar uma pauta de reivindicações. No momento em que a segurança do prédio fechou as portas, houve revolta e eles decidiram forçar a entrada e ocupar o prédio, por volta das 17h30min. Foi, portanto, um ato súbito e sem planejamento prévio. A análise astrológica demonstrará que a Ocupação surgiu como um sopro, que tinha um direcionamento muito preciso, e que aqueles 300 estudantes terminaram por fluir através de uma brecha muito bem definida no tempo, dentro daquele modo súbito de agir.

Apesar da banalização promovida por quase a totalidade da imprensa na cobertura dessa ocupação, os estudantes foram capazes de catalisar o movimento grevista na universidade e influenciar diversos outros movimentos universitários em todo o país. Receberam moções de apoio de movimentos estudantis de diversos pontos de São Paulo, do Brasil, da América Latina e da Europa. Trata-se de um alcance bastante curioso de uma Ocupação tão espontânea.

Um simples primeiro contato já denuncia de imediato a riqueza e a grande quantidade de energia armazenada no horóscopo levantado (figura 1) para a Ocupação. Em particular, o caráter súbito da decisão de forçar a entrada está claramente indicado pela ênfase de aspectos que recai sobre Marte-Urano. Marte, o planeta da luta e da ação, em conjunção com Urano, o planeta da inspiração e excitação súbitas. Os estudantes tentaram arrebentar um vidro blindado sem sucesso, depois entortaram uma grade e estouraram outro lance de vidros. Um jornalista ironizou o "arranjo" formado pela grade, dizendo que agradaria os professores de artes plásticas da universidade.

Urano é um planeta importantíssimo nas agitações políticas coletivas, exploraremos esse ponto mais adiante.

Captando as tensões do céu de maio

Há duas quadraturas T no mapa envolvendo nove dos dez planetas do horóscopo. Esse fato traduz claramente (e mais uma vez) a qualidade de tensão e excitação do momento, refletido no céu do dia 3 de maio. Essas quadraturas podem refletir não apenas um grande encontro de neuroses entre os envolvidos na ocupação, mas também o grande potencial criativo do movimento iniciado dentro dessa reitoria. A oposição entre Vênus e Plutão e a colocação de Vênus na casa 8 indicam os fortes vínculos emocionais decorrentes das interações sociais dentro da reitoria ocupada. Acidentalmente, a reitoria ocupada acaba se tornando também um espaço de socialização dos estudantes. A oposição Vênus-Plutão indica que essa dimensão social é muito forte e que o aspecto afetivo dos encontros das pessoas é firme e penetrante: se duas pessoas se apertam as mãos, isso não é mero formalismo, mas o aperto de mão é firme e não há banalização na troca dos olhares. Pelo menos do ponto de vista afetivo e emocional, no que diz respeito à vida social na Ocupação, a seriedade do vínculo coletivo é assegurada por essa oposição. Já do ponto de vista político, Plutão denuncia uma alta sensibilidade dos membros da Ocupação às questões do poder, em suas relações interpessoais.

Ética, Justiça e Autonomia Financeira

Essa mesma Vênus está oposta também a Júpiter, cuja simples colocação dentro da casa dois (bens e finanças) já seria suficiente para apontar a vocação do movimento quanto às questões éticas e jurídicas envolvendo os bens e as questões financeiras da universidade. A presença de Plutão nessa mesma casa 2 indicaria o medo dos estudantes de que uma força sinistra, autoritária e poderosa surgisse "das profundezas" (nesse caso: do alto, do poder governamental) e usurpasse os bens da universidade. Nesse ponto, vale lembrar a questão da "autonomia financeira" da universidade, textualmente ameaçada pelos decretos originais de Serra: um dos argumentos centrais dos estudantes era a inconstitucionalidade dos decretos.

Endurecer, mas sem perder a ternura

Uma configuração particularmente preocupante envolve a décima casa do mapa da Ocupação: aquela que diz respeito à imagem pública do movimento. Ali encontramos o planeta Saturno, com sua rigidez e peso alquímico do chumbo. Na melhor das hipóteses a imagem pública do movimento é de seriedade e solidez. Na pior das hipóteses, o movimento aparece como rígido em suas posições, autoritário, engessado, teimoso. Que, aliás, é justamente a imagem que muitos possuem do marxismo. A imprensa de direita e contrária ao movimento vem investindo na idéia de que o movimento não está aberto ao diálogo (Capricórnio está na cúspide da casa 3, a da comunicação), que, do ponto de vista saturnino, se encaixaria realmente melhor à realidade desse mapa. O movimento estudantil, por sua vez, deve tomar muito cuidado com suas possíveis posturas rígidas, que é de fato uma tendência do movimento indicada pela posição de Saturno e que facilmente "pegaria" como imagem pública. O que parece, de fato, é que tanto o movimento quanto as autoridades querem impor suas próprias formas de negociação. E aqui ficamos à mercê das nebulosidades políticas: as "análises" tendenciosas da grande imprensa são quase inúteis e, para os ingênuos, perigosas. E mesmo as análises de especialistas e juristas nunca estão livres de suas próprias concepções e profundidades políticas (a mera análise técnica, por exemplo, é insuficiente para uma visão completa). E o mesmo deve valer também para as análises astrológicas.

Um dos pontos agudos, por exemplo, em que as faces de Saturno se confundem é a questão da insistência dos estudantes em permanecerem na Ocupação, mesmo sob ameaça da vinda da Tropa de Choque. Alguns professores da universidade lêem esse posicionamento segundo a face maléfica de Saturno: consideram os estudantes intolerantes, rígidos e interessados num confronto alucinado. Outros, no entanto, fazem uma leitura mais positiva e vêem nisso a seriedade saturnina do movimento: o jogo político de uma resistência perante o Estado, enquanto se tenta avançar nas negociações. Veremos mais adiante que a segunda leitura mostrou-se particularmente válida, já que a resistência, até a altura de um ciclo da Lua, foi bem sucedida.

Ascensão e Queda?

Apesar das conquistas e vitórias do movimento estudantil até aqui, vale lembrar que alguns astrólogos costumam considerar a posição de Saturno de décima casa como indicadora de "ascensão e queda". Segundo essa concepção, podemos imaginar o movimento de ocupação crescendo de forma decidida e ambiciosa, mas como a energia não duraria para sempre, assistiríamos a uma queda estúpida, graças à inflexibilidade de Saturno, nesse caso agravado pela quadratura a um Sol taurino, signo de visão estreita (Adolf Hitler tinha uma quadratura idêntica em seu mapa natal). Seria um temível fim para o movimento estudantil dessa Ocupação, mas que ainda assim não minaria as novas idéias que estão sendo, nesse momento, plantadas na cultura do movimento estudantil. Voltarei a essa questão mais adiante.

Utopia e Pragmatismo

Não podemos deixar de analisar em Saturno sua oposição a Netuno, o planeta idealista e das utopias, que está na quarta casa, das raízes históricas do movimento. Netuno é um planeta de anseios sociais e coletivos. O marxismo é uma influência certa aqui. Saturno, ao contrário de Netuno, é um planeta pragmático e concreto, que busca uma realidade sólida e palpável. A oposição de Netuno a este planeta indica então o conflito entre os ideais e as utopias e a realidade pragmática. O anseio do movimento seria, assim, a de resolver esse conflito. Essa oposição imbica na quadratura T com o Sol no materialista signo de Touro, na cúspide da casa 7, uma casa de conciliação e de negociações, funcionando como vértice daquele conflito entre Netuno e Saturno. Esse Sol me traz a imagem de um boneco cujos membros estão sendo puxados em direções irreconciliáveis e que tende a se estilhaçar. Não sei se a solução para o conflito agudo está no universo de possibilidades do movimento e acredito que a flor que irá nascer nesse asfalto cruel não estará nem na rua e nem na calçada: talvez ela cresça dentro de um bueiro, e acredito que ainda assim ela encontrará lugar ao Sol. No momento em que escrevo, nem pensei em associar a metáfora ao Sol da casa 7, mas a metáfora até que serviu e acabou caindo bem.

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