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Um olhar brasileiro em Astrologia
 Edição 107 :: Maio/2007 :: -

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CONGRESSO EM BUENOS AIRES

GeA: Astrologia com sotaque portenho

Fernando Fernandes

Em junho acontece em Buenos Aires mais um GeA, o Encuentro Gente de Astrologia, mais tradicional evento do gênero na América Espanhola. Veja como foi o GeA de 2006.

O congresso GeA - Encuentro Gente de Astrologia - é realizado há dez anos normalmente no mês de junho, atraindo a participação de astrólogos argentinos e de outros países latino-americanos. A partir de 2006, a Astrologia brasileira também se fez presente, com dois palestrantes.

Na versão 2006, a palestrante Emilia Olga Ghirlanda (foto) abriu o GeA apresentando o tema O zodíaco como holograma da vida ao mesmo tempo em que, na sala ao lado, apresentava-se o espanhol Juan Estadella, que discutia os aspectos nos mapas de retorno solar. Estadella, que também estará presente em agosto no simpósio do Sinarj, conseguiu ser ao mesmo tempo o palestrante mais jovem e mais formal do evento, apresentando-se de terno e mantendo a sobriedade até mesmo durante o jantar, onde continuava de terno em meio a uma animada comemoração pela vitória da Argentina na Copa da Alemanha.

Alejandra Lauria apresentou uma análise da vida e obra do diretor teatral russo Constantin Sergejewitsch Stanislawski, sob o tema: Os desígnios cósmicos e as bases da arte cênica realizadas por um capricorniano. Stanislawski, nascido em 17 de janeiro de 1863 em Moscou, revolucionou para sempre as artes cênicas ao desenvolver um método de preparação do ator baseado na construção do personagem a partir da vivência de sua realidade psicológica e corporal. Foi com Stanislawski que ganharam força técnicas como os laboratórios de improvisação e a intensa preparação física do ator, cuja corpo e cuja voz deveriam, na opinião do diretor russo, constituir um instrumento de trabalho preciso, flexível e sempre bem afinado. Para um tema tão específico, uma platéia ainda mais específica: estiveram presentes apenas duas pessoas - ambas com vivência profissional em teatro, como a própria palestrante. Foi a menor platéia do evento, o que não impediu que ocorresse uma animada troca de percepções. Para um leigo, o nome Stanislawski pode não significar muita coisa; para um astrólogo que também tenha sido ator, mergulhar no mapa desse russo genial pode representar uma rica experiência de compreensão da própria memória afetiva.

Uma constante em congressos de Astrologia, também presente no GeA: o stand de livros especializados. A diferença, aqui, é que os títulos são todos em espanhol. Autores brasileiros, escrevendo em português, não encontram nenhum espaço nas estantes do país vizinho. O mercado é dominado pelas editoras locais (com destaque para a Kier) e pelas poderosas concorrentes espanholas.

Celisa Beranger ocupou uma das vagas na cota brasileira da programação do Xº GeA. A outra foi do próprio autor deste artigo, que falou sobre o simbolismo astrológico do Hino Nacional Brasileiro no exato momento em que Buenos Aires inteira parava para ver a seleção local estrear na Copa da Alemanha. Naturalmente, a torcida local preferiu o hino argentino. Já Celisa trouxe para casa o prêmio do concurso de monografias do GeA na categoria internacional, com o trabalho Estrelas Fixas - os dois métodos, que também foi tema de sua palestra. Na foto, Celisa Beranger (à esquerda) aparece ao lado de Silvia Ceres (centro) e Adrian Argüelles (direita), os organizadores do GeA. O geminiano Adrián, que já trabalhou no programa nuclear argentino, é hoje o responsável pela retaguarda tecnológica de Gente de Astrologia, administrando o site e todos os seus recursos interativos.

Um dos trabalhos mais criativos do GeA foi apresentado pelo discreto pesquisador Osvaldo Cirigliano, que falou sobre as relações que vinculam o grupo sanguíneo de um indivíduo com as indicações de seu tema astrológico natal. Com base em evidências estatísticas, o autor misturou fisiologia, bioquímica, antropologia e psicologia para defender uma tese que, na pior das hipóteses, já teria o mérito de ser cientificamente testável. Do ponto de vista de apresentação de resultados de pesquisa, foi o momento mais interessante do congresso (Constelar está tentando obter autorização para traduzir o texto).

O GeA de 2007 acontece no mesmo endereço de 2006: o centro de convenções do hotel Íbis, na região central de Buenos Aires, a apenas duas quadras do edifício do Congresso Nacional (foto). Trata-se de uma localização central, se bem que tranqüila e arborizada. O único perigo é representado pelos cães que enchem a praça em frente, levados por crianças e aposentados, e que de vez em quando cismam em ameaçar algum astrólogo distraído. O autor deste artigo, por exemplo, perdeu parte de uma palestra tentando escapar de um irritado schnauzer.

O perigoso cão que discrimina astrólogos brasileiros. A foto só pôde ser tirada depois que o dono apareceu e pôs a fera na corrente.

Viviana Rodríguez apresentou Bolívia: el camino hacia la dignidad, um detalhado estudo sobre os acontecimentos políticos do conturbado governo de Carlos Mesa no país vizinho, que culminaram numa violenta convulsão social, em julho de 2005. A crise do governo Mesa radicalizou posições e preparou caminho para a eleição de Evo Morales, em 2006, cujas perspectivas a mesma astróloga analisou para Constelar no evento Presságios2007.

A palestra de Viviana no GeA foi um excelente exemplo do estilo argentino de fazer Astrologia Coletiva, técnico e eminentemente "gramatical": a astróloga começou utilizando os mapas dos ingressos solares em Áries, calculados para La Paz, nos anos de 2003 e 2005; prosseguiu com o ingresso do Sol em Libra, de 2003; daí, enveredou pelos eclipses de Sol e Lua ocorridos no período, tanto diretos quanto conversos, sendo que estes últimos são calculados a partir de trânsitos e direções conversas, obtidos mediante a subtração, tomando por base a carta radical, de um número de dias igual ao transcorrido entre a data da carta radical e um fato presente. Parece complicado? Eis um exemplo: entre a Independência do Brasil, em 1822, e a eleição de Lula, em 2002, passaram-se 180 anos e algumas semanas. Projetando esse intervalo de tempo para trás, ou seja, subtraindo 180 de 1822, chegaríamos ao distante ano de 1642. Depois de localizada a data conversa exata, com precisão de dias, poderíamos analisar os trânsitos conversos, a revolução solar conversa e analisar o impacto de eclipses eventualmente atuantes naquele momento sobre os acontecimentos de 360 anos mais tarde!

Para completar, Viviana ainda utilizou todas as Luas Novas e Cheias, diretas e conversas do período, sem falar em paralelos, contraparalelos, antíscios e contra-antíscios. Uma boa parte da platéia acompanhou a explicação de mapa na mão e fez observações bastante pertinentes, o que demonstra que a técnica das datas conversas não é algo estranho ao repertório de técnicas de nossos vizinhos portenhos.

O Editorial Kier, bem conhecido dos brasileiros, costuma aproveitar o GeA para divulgar seus lançamentos anuais. Em 2006, o lançamento em pauta foi a obra Astrologia Hermética, do autor cordobês Eduardo Gramaglia. Trata-se de um mergulho na Astrologia Helenística, cujas raízes remontam ao mítico Hermes Trismegisto e sua escola de filosofia. O maior mérito do livro, segundo o próprio autor - que também é músico erudito - é basear-se em traduções diretas dos textos gregos, fornecendo ao leitor subsídios que raramente estão disponíveis em língua espanhola.

O Editorial Kier, que já foi uma forte referência na publicação de obras astrológicas nas décadas de setenta e oitenta, vem recuperando espaço nos últimos anos mediante o investimento em autores locais (em vez do caminho fácil das traduções de best-sellers americanos) e a publicação de diversas pesquisas originais. Uma peça fundamental na nova fase da Kier, segundo os próprios autores publicados, é Ana Lía Rios (na foto, ao lado de Gramaglia), responsável pela seleção e publicação da coleção astrológica. Para Eduardo Gramaglia, por exemplo, o trabalho de Ana Lía vai além do que um editor costuma fazer, na medida em que orienta pessoalmente os autores a encontrar o meio termo adequado entre o aprofundamento do tema e as expectativas do leitor mediano. O clima de idílio entre os autores argentinos e sua editora preferida deixaria com inveja alguns autores brasileiros, obrigados a lidar com problemas de distribuição de suas obras, falta de apoio na divulgação e dificuldade para recebimento de direitos autorais.

Não é por acaso que Buenos Aires tem a maior quantidade de psicanalistas per capita da face da Terra. A temática psicológica é quase uma obsessão portenha (todo mundo parece já ter-se submetido a análise ao menos uma vez na vida), e fez-se notar fortemente em pelo menos dois dos trabalhos apresentados: Astrologia e quadros psicopatológicos, por May de Chiara e Alejandro Lodi, e Enfoque psicanalítico do Vértex, por Juana Vaisman. Ainda na linha comportamental, o público pôde assistir também a Leonor "Kuky" Nietzschmann (foto) apresentando Quíron e o círculo sagrado.

Ao contrário do Brasil, onde os representantes das linhas clássica, mundana, comportamental e esotérica convivem sem maiores problemas, as diversas tendências tendem a ser mais nítidas na Argentina, assim como o patrulhamento ideológico sobre cada turma. Os representantes de cada corrente já têm seu público cativo, como é o caso do analista junguiano Alberto Chislovsky (à direita), que apresentou Marcilio Ficino, a vista e os furores divinos, e de Jerónimo Brignone (abaixo) e Norma Amor, que fizeram uma demolidora palestra sobre Ensino e Pesquisa em Astrologia.

Brignone e Norma são diretores do CABA - Centro Astrológico de Buenos Aires, e apresentaram uma lista dos pontos que podem fragilizar o ensino e o desenvolvimento de pesquisas na área astrológico. Entre os pecados apontados, estão desde a inconsistência entre metodologia e resultados até os exageros das correntes mística e esotérica, passando pela tendência contemporânea de dar à Astrologia um verniz científico "traduzindo-a" no jargão de outros saberes, especialmente a Psicologia.

Brignone, autor de um Manual de Tecnicas de Sintese Astrológica, assim como Silvia Ceres, autora de Astrosociologia (ambos publicados pela onipresente Kier), estão entre os muitos autores argentinos que merecem urgentes traduções para o português. Não se justifica que as editoras brasileiras continuem publicando o fast-food astrológico de alguns autores americanos de segunda linha quando temos, bem aqui do lado, autores de tanta qualidade. A verdade é que as Astrologias brasileira e argentina se complementam. E têm muito a aprender uma com a outra.

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